Cardus Edição 11, 01-07-2017
Há bem mais de trinta anos, numa viagem ao Porto, quando os passageiros já largavam o autocarro, o meu filho mais novo, mais ou menos sossegado até então, resolveu começar a cantar uma canção muito popular na época, alto e bom som, que dizia mais ou menos assim:
Pelos caminhos de Portugal,
Vi tanta coisa linda, vi um mundo sem igual …
Toda a gente se riu, foi uma nota de boa disposição no términus da viagem. Na altura não havia autoestrada de Lisboa ao Porto, o percurso era em parte feito por estradas nacionais, o rapaz deve ter estado atento à paisagem e pelos vistos gostou.
Ainda hoje e sempre que o tempo não aperta procuro viajar pelas estradas nacionais. Não digo pela N1, que é a avenida principal de não sei quantas terreolas de Lisboa ao Porto, cheia de lixo, buracos e camiões à nossa frente, mas por outras mais interiores ou então secundárias, onde a presença humana é mais rara ou inexistente. Aqui há bastante mais natureza, a parte humana é apenas interventiva, passa-se bem ao lado de vales, rios, terrenos cultivados ou nem por isso, raramente nos cruzamos com outros veículos, não há barulho, podemos perfeitamente ouvir a valsa das flores enquanto ondulamos pela estrada. Á moda antiga, quem levar merenda, encontra inúmeros locais onde pode parar, serenar o estômago, sentir as brisas suaves dos fins de tarde, relaxar e voltar à estrada.
Existe muita informação sobre estas estradas, mas o que aconselho é mesmo partir à descoberta: vá devagar, fuja das horas de calor, ligue o GPS apenas e quando estiver a aproximar-se a hora do regresso. De carro vai-se bem, de moto ainda melhor.